Nonsense consensual em forma de blogue.
Criado no dia 22 de Abril de 2012.

Casamento de Conveniência

+ 10 comentários
Tinha acabado de passar duas horas ao telefone com um amigo, tão beato que me apetecia fumá-lo, discutindo vários detalhes do livro sagrado até ao mais ínfimo detalhe. Ele avisou-me que nenhum bom cristão pode casar com a mãe, com a tia, com a irmã, com a enteada, com a filha ou até mesmo com a neta mesmo que ela já tenha mais de trinta quilos. Mas em parte alguma do livro, desculpem, do Livro, diz que não poderia casar comigo mesmo. Sendo assim, quando me dirigi ao pároco aqui da zona e lhe coloquei a minha intenção (levei os boletins de vacinas, o diploma do crisma e vinte euros para a caixinha), o senhor padre disse-me logo:

- Filho se achais por bem não vejo porque não.

Claro que no livro também não é proibido casar com vibradores, postes de electricidade ou animais domésticos. Talvez por isso o meu amigo padre dedicasse tanta atenção ao maravilhoso podengo que lhe guardava a caixa das esmolas. Ou ao seu peluche, um belo ursinho baptizado em Jerusalém a quem ele estimava como se fosse real.

Depois de convencer o clero , tive que convencer os pais do homem da minha vida: os meus pais.

A minha mãe não me levou a sério e foi acrescentando que eu estava muito magrinho e que não devia andar a comer nada de jeito. O meu pai chamou-me de paneleiro e perguntou se eu iria vestido de noivo ou de noiva.


No entanto, eu sabia que poderia confiar nos meus amigos. Recebi vários presentes deles que me encheram o coração; edições antigas da Gina, um espelho para o tecto do quarto e um telemóvel novo para eu poder falar comigo a qualquer hora.

Por isso mesmo, é que fiquei surpreendido quando todos começaram a rir-se (um amigo até mijou a tanga nova) quando fiz os meus votos no casamento:

- Prometes ser uno com o teu marido e respeitá-lo como respeitas a ti? Amarás o teu marido até que a morte os separe?.

Tive uma grande lua de mel no Elefante Branco e o meu cônjuge divertiu-se tanto como eu. Reservei um privado no Passerelle e estoirei dinheiro que nem um louco. . .

O casamento foi um sucesso durante alguns anos. Talvez por uma questão hormonal, comecei a desejar ter um filho. O meu marido não mo podia dar mas os ponteiros do relógio biológico não param. Caprichos da natureza.

Falei com o meu amigo beato e ele explicou-me que o divórcio não era permitido pela Igreja. Senti-me em pânico. Casado para o resto da vida com alguém que não servia os meus intentos. Pensei em matar o meu marido.

Com o tempo consegui um acordo de divórcio amigável. Demorei muito tempo até arranjar uma mulher sem ter o sentimento de que estava num ménage à trois.

Mas hoje em dia sou feliz. Costumo perguntar às pessoas que não gostam dos seus cônjuges:

- Achas que serias um bom companheiro para ti?


De vez em quando ainda sorrio. Especialmente quando olho para o quintal do vizinho e vejo meu amigo padre a rebolar com o seu podengo. 





Nota: Baseado numa história folclórica anglo-saxónica [primeira versão largada na FLD (fórum de geeks ordinários) em 2006] 

10 comentários:

  1. Já tinha lido... e não há só este... :)
    Viver aprisionado ou viver pobre e livre?
    Viver com alguém que não te conhece ao fim de tanto anos, ou viver em liberdade?
    Prefiro viver livre, pobre e feliz comigo mesmo, do que amordaçada.
    Eu seria feliz se pudesse ( me deixassem ) ser quem sou, mas não é assim...
    O maior erro da vida? Não foi ser mãe, foi "casar" por dinheiro e não por amor...
    Aprendi a aceitar o que posso ter e não que gostaria de ter.
    Se seria um bom companheiro para mim? Claro sim!!!
    Bem.... acompanhado sempre era mais divertido, pelo menos não tinha frio nos pés, mas até para isso tenho um saquinho de água quente.

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  2. Pobre e livre? Isso não existe. Liberdade é riqueza. Pergunta à Tangerine. É das pessoas mais livres e ricas que conheço. Mas isso não chega. Somos todos diferentes. Não vamos invejar o que nos outros resulta porque, em nós, pode não ser a nossa felicidade.

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  3. Eu gostava de saber é onde anda a Tangerine. E vocês deveriam querer saber também. Ela já vos deu parte do coração, é altura de retribuir.

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  4. Cada um sabe qual o seu caminho da felicidade. Não tem nada a ver com os "outros".
    É fazer uma ruptura e cada vez mais sinto isso. Já estive muito tempo a cuidar do próximo, agora ( peço desculpa pelo egoísmo ) sou eu a cuidar de mim.
    Um homem disse-me uma vez " Guarda os teus sentimentos para ti...".
    Pois é o que vou fazer, afinal de contas são todos iguais.

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  5. Quando posso ser um "autor convidado" e ver um texto meu publicado neste tão nobre Blog ?

    Posso enviar-vos um texto para aprovação ? Se aceitarem tudo bem, se não aceitarem... tudo bem na mesma.

    Só para não fugir muito ao assunto do tópico: Brilhante texto. Casarei por civil. Eu não quero ser pecador. Não quero prometer algo que nunca vou cumprir em plena igreja. Deus nosso senhor está em toda a parte e é poderoso. Não o posso enganar! Mesmo que case comigo mesmo, será por civil apenas. Sou insuportável, não me ia aguentar a mim mesmo e a igreja é contra o divórcio. (sou ateu, mas disse isto só para parecer bem)

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  6. Caecillia: Ainda não sei da Tangerine.

    RRodri: Boa ideia.

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    Respostas
    1. Esqueci -me da Tangerine...
      Que esteja tudo bem com ela.

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