Nonsense consensual em forma de blogue.
Criado no dia 22 de Abril de 2012.

Culpa III

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A criação de um texto obedece, em algumas pessoas, a um método tão rigoroso como seguir uma receita do Pantagruel. Os devidos pesos, a duração certa, se é sobremesa, entrada ou prato principal e a quem se destina o repasto final.

Outros mais tontinhos como eu, limitam-se a ir escrevinhando, fumando um cigarro e beberricando algo que hoje por acaso é café com gelo e limão. A ideia está lá mas enquanto não surge uma oportunidade para a encaixar vai-se enchendo chouriços como estou a fazer agora. Em dois parágrafos já fiz referências a comida mesmo já tendo jantado duas vezes. Creio que é falta de alimento. Alimento para a alma como cantava o Lou Reed.

E, lá está. É agora que dou a volta ao texto e espeto com o que queria.

Por falar em espetar...

Não, não é para aí que eu vou virar o tema. Esta não é uma crónica erótica da Tangerine. Falava-se de alimento.

O maior alimento que eu me posso lembrar é o afecto. Os afectos, de maior ou menor intensidade, preenchem-nos e esvaziam-nos. Ficamos cheios, alimentados e de ego anafado quando tudo corre bem e com uma tremenda indigestão e a jurar que nunca mais comemos daquilo quando as relações terminam. Pela terceira vez, mencionarei a atribuição da culpa e a sua imprescindibilidade quando a curva dos afectos começa a descer.

A culpa existe sempre e é tão real quanto a acção em si. Não existe um desfecho negativo sem culpa. Ah e tal, foi azar. Não há azar nem sorte. Há culpa. Mesmo quando não acertamos na lotaria, a culpa é nossa por escolhermos um bilhete que não tinha prémio. Culpa, culpa, culpa. Não há azar.

Estando este ponto estabelecido, falta verificar de quem é a culpa. Para facilidade de exemplo, tomemos duas pessoas. Aproximam-se, seduzem-se, apaixonam-se, separam-se. De quem é a culpa da separação?

Isso é fácil, dir-se-á. A culpa é do gajo por ser um grande filho da puta ou da gaja por ser ela a dita puta. Não. Isso será remeter a culpa da separação para o dia em que ocorreu. A separação, tal como a morte, começou no dia em que se aproximaram. E quem tomou a iniciativa da aproximação?

Já percebi, quem se aproximou e iniciou aquela bela merda é que teve a culpa. Mais valia estar quieto a contar azulejos. Errado. Pode ter sido induzido em erro pela outra pessoa.

Então de quem é a culpa afinal?

Pois, nunca se sabe. E, a verdade é que não interessa. Se cairmos e partirmos uma perna, o que interessa é a perna partida. Não interessa o que tinhas calçado, se havia óleo no chão e quem o deitou lá, se poderias ter seguido outro caminho. Caíste e fodeste-te. Ponto. A partir dá não há nada que te adiante na atribuição da culpa a não ser para pagar as contas do hospital. Mas, a perna, essa, continua partida. Com culpa ou sem ela, não interessa quem paga a conta.

Interessa quem partiu a perna. 

No entanto, a perna não dói tanto se atribuirmos a culpa a alguém. Mesmo não sabendo se é verdade.

 A perna, por muito que não queiras, continuará partida. 

18 comentários:

  1. A culpa e de quem brinca com o Amor. Nao se faz e feio. Magoa. Marca a ferro. Sara mas fica sempre la.

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  2. E evidente e, mas nao lhe tira a culpa. E essa brincadeira poderia ter tido consequencias mais graves, como a morte! E ai? Quem ficava com a culpa? Ninguem!!! Porque gostam de brincar mas nao pensam. Dizem que gostam das pessoas, mas maltratam -nas!

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  3. Não percebeste o texto. Nem a culpa é importante nem quem a tem é fácil de avaliar.Não são sempre os outros que têm a tal culpa.

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  4. E como diz o Boss " we take care of your own " e nao o contrario.

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  5. Sendo assim, a culpa morre sozinha. Existe sempre uma razao. Porque morres? Porque estas vivo.
    Como vais morrer e quando vais morrer? Nao sabes. E facil.

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  6. Our own...E, além de ser completamente fora de contexto, não vejo porque o contrário não seria válido. "Our own taking care of us". Basta chegar à terceira idade para ver que isso acontece com frequência. Mas isso seria sobre o tema gratidão que não tem puto a ver com culpa.

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  7. Estás a passar-te, Caecillia...e para que te interessa que a culpa morra acompanhada? Para algum sentimento mesquinho de represália do género "espera aí que já te fodo?" Não faz sentido, não traz proveito algum e é humanamente primário demais.

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  8. Cada cabeca sua sentenca. Por isso sermos todos diferentes. Porque cada um de nos ve as coisas de maneira diferente. Se estivermos fora da situacao onde se encontre a culpa, conseguimos ve -la.

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  9. Se estivermos fora da situação porque raio nos iremos meter num assunto que não é nosso? A isso chama-se meter o bedelho onde não se é chamado, a foice em seara alheia, a colher entre marido e mulher e tantos outros adágios populares que, geralmente, estão certos.

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  10. Nao. Nao concordo com sentimentos mesquinhos. Mas tenho opiniao e nao gosto de me calar.

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  11. Porque somos pessoas e nos importamos com os outros. Cuidamos deles. La esta outro assunto. E nao e por gratidao que cuidamos.

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  12. Opinar sobre coisas que não nos dizem respeito não é importar. É interferir. Obviamente que tudo isto dentro do tema das culpas entre duas pessoas.

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  13. "a culpa e de quem brinca com o Amor. Nao se faz e feio. Magoa. Marca a ferro. Sara mas fica sempre la." Ok vamos chamar as coisas pelos nomes? Porque se estamos a ir por este ponto do brincar com o amor posso dizer que tanto brinca aquele que engana como o que se deixa enganar. Existem muitas pessoas que se deixam enganar...e gostam...o importante na nao atribuicao da culpa tem a ver com o deixa-la morrer sozinha. Culpabilizar e envenenar o veneno! Qual e o ponto? Eu digo muitas vezes e utilizo a palavra culpa para me ajudar a fazer um ponto de vista, que a culpa do mundo estar assim e do dinheiro...mmmmm...ai e? Entao e o dinheiro fez-se sozinho??? O facto de acharmos que existe uma razao para tudo e porque somos egocentricos. A unica razao que existe para viver e estar vivo e tudo o resto e "peanuts" e bonus que temos na vida. A vida existe por ela, nao precisa de nos! Faz confusao? Claro que faz, porque todos queremos deixar uma marca eterna e acabamos por viver em funcao de tudo e todos menos da nossa propria vida. A culpa faz as guerras. Se depois de uma bomba arremessada e vidas perdidas a parte que sofreu as perdas dissesse: "ok. voces foram mauzinhos, mas nao nao vamos ripostar porque nao faz sentido" muita coisa se teria evitado. "a minha vida e uma merda, e a culpa e do Fulano", perdi nao sei quanto tempo a pensar nisto e perdi a oportunidade de me refazer mais depressa! Eu entendo a frustracao que e de as vezes a nossa vida nao correr bem como nos queremos, e de as vezes parecer que estamos sem saida e embrulhados no maior problema de sempre etc etc, mas culpar alguem nao vai trazer mais alivio, culparmo-nos a nos tambem nao. E depois ainda existe uma questao mais profunda, quem somos nos para culpabilizar seja quem for, para julgar essa pessoa como culpada?? Tornando as coisas visuais, nos seremos sempre o juiz corrupto a dar as pancadinhas na sapateira a abri-la e a comer-lhe o miolo. Nao ha deuses, nao ha pessoas perfeitas, nao ha culpa.

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