Nonsense consensual em forma de blogue.
Criado no dia 22 de Abril de 2012.

Fluorescência (Dia 5 de Maio)

+ 8 comentários
Para Alba


-1-

É o meu aniversário. Acordo nesta manhã húmida de Maio, surpreendido pelo chilrear de algum passarelho na árvore do jardim e fico, ainda meio confuso, a fitar a parede branca do quarto onde o sol parece querer desenhar mensagens de cristal.

“É o meu aniversário”, descobri subitamente. Quase oitenta anos e onde é que eles foram vividos? Onde foram parar?

Lembro-me de estradas, casas, caminhos. Lembro-me de vozes, palavras por dizer e outras ditas em demasia. Lembro-me de muito mas muito foi tão pouco. Oitenta anos. Quase.

Vou até à janela do quarto e olho para o jardim onde os gatos preguiçam sem perderem a noção de que algum pardal menos afoito lhes poderá cair nas garras. “Deveria limpar o jardim”, penso. “Depois, muito depois.” As rosas estão a crescer alvas e vermelhas. “Alba e sangue”, cruzou os meus pensamentos mas, de manhã e antes do café, tudo me passava e fugia da cabeça com a velocidade e inconsequência da luz. Estremeci e de imediato me esqueci.

Enfio os chinelos, os pés andam sempre frios agora, e vou até à cozinha. Deixo deslizar uma fatia de pão para a torradeira e espero pelo cheiro reconfortante do pão torrado misturado com o aroma do café em ebulição na cafeteira.

Mastigo as torradas e reservo o resto do café para acompanhar o meu cigarro. Nunca deixei de fumar. E tenho oitenta anos. Quase.

Acendo um cigarro e enquanto o fumo com a gula matinal da nicotina, olho para o tecto e para a lâmpada fluorescente que o atravessa. Lembro-me de ter 17 anos e ser igualmente fluorescente. Lembro-me de alguém fluorescente, intensa. Lembro-me de tudo. Quase.

-2-

“O tempo voa”, digo em voz alta com a certeza de ninguém me ouve há muitos anos. Nem sempre foi assim. Houve um tempo, em que as palavras eram como moedas de ouro que tilintavam no ar enquanto brincava aos piratas. A árvore do jardim era a uma caravela e da esfregona fazia uma lança.

O antigo relógio de pêndulo toca e eu preparo-me para enfrentar mais um dia. Ouço as notícias. Gritos de dor e crianças mortas intervalam com um anúncio de um humorista sobre pasta de dentes. A crueldade invadiu o mundo e ninguém parece se importar. A pasta deixa os dentes mais brancos que as da concorrência e foi descoberto mais um caso de uma criança abusada durante anos. Os jornalistas deliram, os espectadores babam-se em contemplação do demónio que faz estas coisas e a festa está montada. Já existiram outros tempos. Tempos em que os jardins eram só jardins e uma criança era só um pirata numa árvore.

- Miaaaaau!

Sorrio e a manhã é salva pelo meu gato mendicante atraído pelo odor já quase extinto do pequeno-almoço. Gosto dele. Salva-me todos os dias com o seu amor interesseiro e franco. Sei que me trocaria num ápice por outro que lhe desse comida. Gosto dele assim, honesto. Faço-lhe uma festa e sorrio novamente.
Hoje não é dia de banho. Visto umas calças de sarja e uma camisa amarrotada demais para os padrões aceitáveis na minha idade. Não faço a barba. Corto-me com frequência, ultimamente.

Abro a porta da frente e vejo a Alba parada a sorrir-me duma forma que sempre me incinerou.

- Parabéns, meu querido!

Sem ficar surpreendido, retribuo o sorriso e suspiro com olhos escurecidos. Alba, quinze anos também em Maio. Ela dirigiu-se para o passeio mais o seu sorriso e disse:

- Não me esqueci!

- Eu sei, eu sei..

- Vamos passear?, e estica-me a mão convidativa.

-3-

“Não posso, Alba. Tu estás morta.”

O sol desliza pela rua até chegar à minha porta onde a Alba desvanece como açúcar em água quente.

“ Minha querida Alba", penso, “ Minha querida e morta Alba.”

Evito o supermercado. Tornou-se num local complexo. As pessoas atropelam-se, esquecem-se das outras e só querem chegar a casa. As crianças gritam. Os bebés pedem mama nos locais menos convenientes para as mães desesperadas com três sacos e um marido que se alheia a ver a zona dos vinhos. Raparigas novas mostram um pouco de carne e rapazes novos respondem com adereços da moda e atitude. Comida espalha-se pelos chãos dos corredores. Muitas pessoas, muito espaço. Muita solidão para mim.

Vou a mercearias mais pequenas, converso com as pessoas e trago produtos da terra mais meia dúzia de pães frescos feitos a lenha. Passo pela farmácia onde o dono sempre me cumprimenta:

- Como estás?
- Estou, óptimo. Não poderia estar melhor. E tu?
- A mesma coisa.

A vida está cheia de mentiras por educação ou piedade. Odiei-as quando era novo, hoje são um apoio.
Caminho a pé até casa apesar dos meus quase 80 anos. Quase.

Recolho-me em casa com um livro numa zona fresca da casa. As manhãs de Maio são muito quentes e húmidas. Ouço algazarra na rua.

- Ainda bem que já não sou novo.

Desprezo esta altura do dia. Está muito calor para ir para o jardim e ainda é muito cedo para fazer o almoço. A inércia faz-me mal. Perco-me.
Tento ler mas até os óculos parecem embaciados e sem vontade de trabalhar. Perco-me.

- Alba..., murmuro.

-4-

“Alba”, sussurro no silêncio gritante do meu peito.

Alba, Alba, Alba.

Brinco com ela. Fecho os olhos. Fico delirante quando ouço o som da campainha e o ranger do portão do jardim a abrir. Corro pela casa e, depois de recomposto, abro a porta da rua tentando aparentar uma calma que não existe nem nunca existiu quando a via. A Alba está ali. Quinze anos e adorável, emoldurada pelo sol como um milagre. Alba, que exala presença de mulher e frescura de criança.

- Vamos passear, meu querido?

Atrás de mim, outro fantasma sorria.

- Ele ainda tem que me ir fazer umas compras, Alba – disse a minha mãe.
- Vou com ele , então. Faremos as compras juntos , pode ser?

A minha mãe concorda, amando a Alba com a força com que os seus cabelos já grisalhos amam a espera de uma filha nova.

Seguimos juntos pelo caminho, cabeças inclinadas, uma afeição magnética a atrair-nos, falando, rindo, um par aparte dos outros. Apaixonados. Alba, sempre sossegada e confiável como a lua.

Pergunto-lhe esperançado:

- Vais amar-me para sempre?
- “Para sempre e mais um bocadinho”, assegura-me ela enquanto entrelaça os seus dedos nos meus. Nunca quis tanto sentir o toque dos seus dedos entrelaçados como agora. Mágica. Intensa.

No caminho de volta, passamos por um parque. Um atalho que tornou o caminho duas vezes mais longo. Descobrimos entre folhas, arbustos e terra fresca, uma sombra. Sentamo-nos. Sentimo-nos Beijamo-nos. Iríamos beijar-nos assim durante anos.

-5-

Férias de Verão, uma vida aos dezassete. Vou viajar para o interior com o meu pai. Uma viagem de negócios, diz ele enquanto a minha mãe fica em casa. Magnífica viagem. Charutos e whiskies, jantares e sobremesas no Hotel Central. Gins tónicos com uma rodela de limão. Hoje, essa viagem é sempre recordada pelo gin e uma rodela de coração. Memória amarga.

Estou com os amigos do meu pai. Uma festa e o cheiro de talco e sexo. Não sei porquê, sempre me cheirou a talco entre mulheres devotas ao numerário. O meu pai autoriza-se a estar somente meio casado, dando a abertura desejada. Permissão para pecar. Fome e vontade de comer.

Esta rapariga diz-me que os pais não estão por perto. Espírito livre diz ela ser e sem compromissos ou ligações que a humanizem. Perfeição esculpida mas sem voz nem alma.

“Deixa-me ajudar-te a encontrar o teu quarto”, diz o meu pai, ensinando-me as regras do jogo das paixões e traições.

A Alba de quinze anos cheirava a mundo, planetas e rosas. Esta rapariga tem uns vinte anos e cheira a gin. Pedras preciosas ao pescoço, pedras no coração. Nua, passeia-se no quarto com ancas e olhos sugerindo amor tónico. Com limão. Caio por cima dela e sou devorado. A Alba de quinze anos dava-me tudo excepto isso. A sua suave pele estava reservada para uma noite estrelada. Eu queria mais. Pedras preciosas em vez de estrelas. Pérolas a porcos.

Mea culpa, Alba -mea maxima culpa!

No Inverno, a rapariga veio até à minha cidade, com promessas de tesouros entre as pernas e o meu orgulho de, finalmente, ser um adulto. Não o era. Alba, de quinze anos, foi colocada de lado, descartada como um brinquedo partido, cuspida como uma pastilha que perdeu o sabor.

- Não me queres mais?, perguntava ela.
- Não.

Lágrimas nos lábios mordidos da Alba. Olhos vermelhos de dor. Uma alma rasgada ao meio, enlameada, usada e desperdiçada. O meu adeus.

- Não. Não te quero.

Fui cruel até ao fim. Frio como a estação. Abandonei a Alba e o meu coração esperava amadurecer.

-6-

A Alba está doente.

Quando regresso a minha mãe esfrega-me os nós das mãos nas costas numa atitude de reconforto.

“Pobre Alba”, diz a minha mãe. Respeito pelos mortos.

Amadureço. Instantaneamente.

Tarde demais.

Lábios descoloridos. Flores na campa cobrindo de cor o meu dia mais negro. Folhas que voam pelo ar e decoram as lajes. Acabaram os beijos ternos e o calor do coração dela. Alba dezassete, nunca vinte. A mãe por trás do caixão. Chuva. E chuva por mais sessenta longos anos.

- A minha querida, perdida para sempre!, choro perdido, prostrado, vencido, envergonhado por ter desistido.

O antigo relógio de pêndulo toca e desperta-me das minhas memórias. Grito o nome dela para as sombras da minha casa.

- Alba?

O mundo continua na rua. Sexo, paixão, memórias e promessas. Folhas que caem, árvores que nascem, gins tónicos que não se deveriam ter bebido. Mas eu tenho quase oitenta anos. Quase.

Encosto-me no cadeirão e olho pela janela uma última vez. No jardim, parece-me ver a Alba pacientemente esperando. Com um sorriso, deixo a cabeça cair e desisto.

-7-

“Queres-me agora?”, pergunta-me.

Sim! Por favor, sim!

Ofereço-lhe a minha mão: “Podemos ir passear agora, Alba. Finalmente, estou morto.”

“Fico contente. Esperei muitos anos por isso”, diz a Alba aceitando a minha mão.

Já é de noite. Onde estou com a Alba é sempre uma tarde de sol. Abandono o meu corpo de quase oitenta anos e parto com ela. Continuamos a fazer os caminhos mais longos e a escolher atalhos para nos beijarmos escondidos. Fluorescentes.

Pergunto-lhe esperançado:

- Vais amar-me para sempre?
- “Para sempre e mais um bocadinho”, assegura-me ela enquanto entrelaça os seus dedos nos meus.


Fim (ou princípio)

8 comentários:

  1. Fantástico. Adorei do inicio ao fim. Não sei bem que dizer. Estou emocionado. :)

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  2. Vocês acordam cedo. Muito obrigado pelos comentários.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Boas, Medinos. Pena que nunca mais te vi nos fóruns HT, até tenho saudades de discutir contigo :')

    Acompanho este Blog diariamente. Em 20 anos de vida, raras são as pessoas que me prendem e me "obrigam" (no sentido figurado)a ler um texto do início ao fim como tu o fazes. Não é demagogia minha, é a realidade.

    Como é que tu não escreves crónicas num jornal ou não escreves livros ? Este país no geral e a literatura em particular precisa de ti :)

    Vê lá se em breve me desbloqueias no Facebook. :) Um abraço e até breve.

    RRodri

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  5. Obrigado, RRodri. Vindo ti, é um elogio tremendo. Abraço.

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  6. Lindo!!! J etais prise dans l'histoire j'en reste l'eau à la bouche pour te relire ;)

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