Nonsense consensual em forma de blogue.
Criado no dia 22 de Abril de 2012.

Águas Passadas

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Sou um coleccionador fervoroso de provérbios. Adoro-os. Pequenos, grandes, rudes, finos, do Norte ao Sul e com uma lasciva roçadela pelo Centro.

Gosto da sua sabedoria e da sua ignorância. Gosto dos que não servem para nada e dos outros. Gosto da opinião popular injectada em veias seculares de senso comum e ditados jocosos em embolias cerebrais. Gosto dos acidentes cardiovasculares dos ditados de paixão e amor. Disso tudo, eu gosto.

E, no entanto, há um que, à primeira vista estaria certo mas é o maior exemplo da estupidez perpetuada e de correcção aferida não pelo conteúdo mas pela repetição. Diz-se que águas passadas não movem moinhos.

Em tempos modernos, poder-se-ia dizer que ventos passados não movem aerodínamos. Só por esta frase, acho que já mereço uma atenção dos chineses que, de há uns tempos para cá, iluminam o  país onde nasci. Não o meu país mas o local onde um dia, sem reis magos, fui parido. E, é certo que me continuo a mover.

Quod erat demonstrandum, sempre quis escrever isto, um acontecimento passado continua a ter influência no presente. Na realidade, a melhor forma que dispomos para abdicar do futuro, é esquecer o passado. Não existe nada tão deletério para o porvir como apagar o que foi. 

Além de que, convenhamos, é um acto duma cobardia imensa e que nada ou ninguém serve.
Ignorar o que foi, passar uma borracha, é justamente isso. Sujar a folha com uma tentativa desajeitada de apagar o argumento inicial e começar a história mais à frente. Mas, mais à frente não faz sentido. Faltam-lhe os episódios anteriores por muito mal imaginados, doentios ou cruéis que o seu autor os tenha criado.

Águas passadas movem moinhos.

E, quando a galinha grão a grão enche o papo, também come uns grãos de areia pelo caminho. Ao apagar as bicadelas em que levou a areia, iria apagar também as outras que a ensinaram a bicar o alimento. A encher o papo em marés de milho pelo alegre cacarejante esófago.

E, sabem o que dizem, há mais marés do que marinheiros. Mas quando passa uma onda, a maré não deixa de existir. Nem tu deixaste de navegar ou passaste a ser melhor marinheiro só porque quiseste esquecer um dia de tempestade.

Chega de meter água.

Águas passadas movem moinhos.


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