Nonsense consensual em forma de blogue.
Criado no dia 22 de Abril de 2012.

Manual do Benzocas

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Até à tenra idade dos dezoito anos, fui malfadado com amigdalites, laringites e afins. Com a maioridade essas maleitas nunca mais me atingiram. Para isso terá contribuído a leitura do grimório de São Cipriano e as várias rezas e sacrifícios animais que realizei no cemitério dos Prazeres. Ainda me lembro daquelas noites mágicas debaixo dos ciprestes e dos raios multicoloridos de luz enquanto recitava, conjurava e enfeitiçava. Era magia. Ou então era a proximidade com o Casal Ventoso e as drogas que por lá alegremente pululavam.

No entanto, nunca mais tive nada a não ser umas dores de garganta ocasionais. Hoje em dia, adulto responsável e agnóstico praticante, deixei-me de rezas. Sobra-me a benzocaína que dá muito menos trabalho que ler o verdadeiro Capa Preta ou Capa de Ferro. De igual modo, deixei-me de meias laranjas e passei a laranjas inteiras como medida de prevenção.

Dizem que homem prevenido vale por dois mas um homem travestido vale por três: o que ele é, o que quer que os outros pensem que ele é e o que ele pensa que é. Dentro destes travestis, temos os benzocas.

Um benzoca não é uma pessoa de bem. É diferente. Um benzoca é alguém que graças a adornos e comportamentos copiados quer parecer algo que não é. É algo como um cromado (explicação do que é um cromado na Intolerável Pobreza do Ser).

Gosto deles. Tenho um lusitano prazer em ver o ridículo dos outros para com escárnio tornar a minha vida mais divertida. Coisas de gaja. Sou muito feminino. E, por gostar tanto, os seguintes pontos facilitarão a tarefa de qualquer um ou uma que queira ser benzocas. Os conselhos são gratuitos e ficam bem a qualquer mesa, baptizado, trabalho ou centro comercial.


Utilizarei uma linguagem cuidada e clara para todos perceberem a descrição e como atingir o aspecto dum benzocas. Comecemos pelo cabelo. É simples. É um cabelo à foda-se. Viram? Linguagem cuidada e clara. Todos perceberam.

Sem pelos faciais, a não ser que use uma barba rala, e com o cabelo à foda-se, chegamos à zona do pescoço devidamente ornada com um fio de ouro, dos baratos, e uma cruz. O benzocas dirá que foi uma prenda dos avós pela altura do seu baptizado na quinta que tinham em Coimbra. Mentira. Foi comprado numa feira do artesanato há dois anos e nem sequer é ouro verdadeiro.

A cruz. O benzocas afirma a sua religiosidade a plenos pulmões. Permite-lhe transmitir a ideia que pertence a uma família conservadora, clássica e antiga. Na verdade, as suas crenças são os jogos de futebol que passam em canal aberto e de religião percebe zero. Mas fica bem e dá ar de beto como defender as touradas e o "nosso" Alentejo.

Ainda pelo pescoço, temos o colarinho. Um benzocas usa camisa. Ponto assente. E não lhe chama camisa, chama-lhe “este camiseiro”. Convém ser às riscas, como um toldo de praia e ter uma marca visível. Gant, Burberrys e outras marcas populares na feira dos ciganos, resultam bem. Para a noite, temos uma camisola com um ar marítimo embora o único barco que ele frequentou tenha sido um cacilheiro. Um casaquinho de cabedal, castanho claro, comprado por uma pechincha em Ceuta, também é um bom adereço.

Relógio. Sempre. Um benzocas não usa relógio para ver as horas porque para isso tem o telemóvel. O benzocas usa o relógio para fazer companhia à fitinha de Nossa Senhora que tem atada no pulso. A fitinha é essencial. É hiper-bem. E, se quisermos aparolar ainda mais, usamos o relógio no pulso direito apesar de todos os relógios serem construídos de forma a usarem-se no esquerdo. A fita ajuda ainda a reforçar a ideia do catolicismo nem que aquela merda lhe tenha sido vendida por um guineense muçulmano.

Calças. Denominadas no vocabulário benzocas por "esta calça". Aqui podemos variar. Tempos houve em que as pinças eram essenciais mas até o benzocas se anda a modernizar. E isto porque a Zara e a Pull & Bear não vendem calças de ganga com pinças. O benzocas gosta de dizer: “Eu até era para comprar umas Levi's mas, muito francamente, não ligo a marcas.”. Yeah, right...e as camisas dos ciganos?

Os sapatos obrigam a algum investimento mas existem baratuchos nos outlet. Mocassins, sapatos de pala ou berloques são boas escolhas.

O benzocas nunca teve uma verdadeira educação, na realidade. Os pais eram parolitos mas boas pessoas, ele é parolito mas convencido. Trata as mulheres por “minha querida” e os pais por você. Se tiver crianças, o tratamento será igual para o seu José Maria ou para o seu Tomás. Numa vã tentativa de parecer queque, rapidamente inventa diminutivos para toda a famelga. A Tatá, a Nanocas, o Kiko, o Micha e a velha amiga da família, a Mena que trabalha como escriturária na Segurança Social.

Todos os seus gestos são feitos de forma a mostrar o relógio, a marca da camisa e o fiozinho de ouro. Mordiscar o fio, colocar a mão no queixo com um ar pensativo (como os basofes fazem) e a mostrar o relógio ou cruzar a perna com a ponta do pé bem empinada são atitudes normais.

No género feminino, não existem grandes diferenças. A escolha da roupa é mais diversificada mas o cabelo com ar de nunca ter visto um cabeleireiro é essencial nas mais novas. Dá um ar inteligente e de pouca futilidade. Nas mais velhas, reinam as extensões, unhas de gel , branqueamentos dentários e silicone. Nessa idade já não interessa o ar de santa e tem-se mesmo que optar pelo ar de puta para enganar outro benzocas ou, com sorte, um que seja mesmo dos ditos de bem. Nunca esquecer os ocasionais mocassins e os jeans da Salsa para as alturas mais informais. Ou, caso ainda desconheçam o poder do mocassim, o sapatinho de salto alto com calças de ganga. A bota não joga, literalmente, com a perdigota mas elas acham que sim.

O benzoca é arrogante. Acha-se mais esperto que os restantes. Conduz, de preferência, um automóvel de gama média que não estará pago nem no dia da sua morte e alimenta-se de sandocas que a sua santa mãe lhe vai preparando.

Mas, melhor do que isto tudo, é o cabelo à foda-se. Isso sim, é a verdadeira benzocaína.







8 comentários:

  1. O cabelo à foda-se parece-me tão bem!!! bjs :)

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    1. É assim uma mistura entre Mico da Câmara Pereira e Justin Bieber com risco ao lado.

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  2. Ja tinha saudades de o ler.
    Gostei desta historieta.
    Parabens!

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  3. Hahaha ainda ontem falei do cabelo a foda -se para designar o "stereotype" do Portugues lolololol

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    1. Já não não é um estereótipo. Hoje em dia, é mais normal o cabelinho à jogador da bola. Pente 2 de lado e algo parecido com uma crista em cima. Aliás, nem vale a pena dizer ao barbeiro como queres cortar o cabelo porque fica sempre igual.

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  4. Ponto a ponto fui verificar se reunia algum desses atributos. Para grande desgraça minha não reúno nenhuma das condições necessárias para a candidatura.
    Rude golpe, gostava tanto de ser benzoca...

    Gostei particularmente deste texto, abraço.

    Brunix

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