Nonsense consensual em forma de blogue.
Criado no dia 22 de Abril de 2012.

O Beijo

+ 2 comentários
Mais um texto da Alexandra Moreira com uma variação em Van Gogh, Klimt 'n Turner de Medinos a acompanhar.


O beijo deixou-a atordoada e mole. Como o primeiro cigarro. A cabeça vazia. Era suposto pelo menos algum excitamento, algum elã, mas ela só sentia um entorpecimento ínvio a percorrer-lhe o corpo. Não percebia.
-Que tens?
Não sabia explicar. Gostava dele até àquele beijo. Agora já não sabia o que sentia…as mãos dele percorreram-lhe o corpo docemente, quase a medo. Estremeceu do torpor. Pareceu-lhe
que acordava com lentidão para aquele jogo a dois, mas não. Encolheu-se.
-Não quero, sussurrou. Não sabia explicar mais nada. Só a negação e pensou “não gosto dele”.
-Porquê? Que tens?
Tantas perguntas. Não era evidente? A voz dele irritou-a. Não queria ser obrigada a verbalizar o desafeto. Não havia necessidade.
Saiu do carro de rompante. Ar fresco. Que bom!
- Que tens? Porque não falas?
Não tinha nada para lhe dizer que quisesse dizer-lhe.
-Não tenho nada para dizer. Não me apetece.
- Mas porquê?
A sufocar com as perguntas dele, quando afinal não havia mistério nenhum. Era só somar. Ainda dizem que as mulheres são complicadas.
- Leva-me a casa, por favor
Ele agarrou-a e beijou-a à força, como se pudesse com isso desenrolar o novelo. Ela não correspondeu. Impávida, repetiu
-Leva-me a casa
- Foda-se!
O carro correu a estrada no mais estranho silêncio. Dois seres que não se compreendem sem palavras é de uma tristeza atroz. Não foram feitos para um beijo quanto mais um para o outro.


2 comentários:

  1. Ja a muito tempo que nao lia algo tao simples e capaz de me transportar para dentro da escrita. Consegui sentir o ar fresco a tocar-me a pele. Obrigada.

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