Nonsense consensual em forma de blogue.
Criado no dia 22 de Abril de 2012.

O que é que eu vou fazer quando for pobre

+ 1 comentário
 E, como não há feira popular que não dê em farturas, temos mais um autor convidado: Victor Figueiredo. Um desabafo sobre a pobreza que também se poderia chamar sem moedas não há voltas no carrocel.
 
 

 
Este desabafo podia chamar-se:
“O que é que eu vou fazer quando for pobre.”

Ando um bocado cansado de ouvir uma data de gente a dizer-me o que devo fazer quando for pobre, sendo que nunca fui rico.

Antes, quando éramos ricos, tínhamos aqueles outdoors de 50 em 50 metros "descapotável, ganda bomba, caça-grelos garantido, só 20 euros (em letras miudinhas, "por dia").
Depois eram aqueles gajos dos bancos a ligarem "cartão de crédito para si que é um cliente muito especial,
crédito ilimitado e tal, vá lá, compre, gaste, consuma que a gente empresta e isso de pagar logo se vê".

Agora, que vamos ser pobres, são os políticos, "emigrem, saiam da zona de conforto, não sejam piegas, vão para o desemprego que pode ser uma grande oportunidade, comam pastéis de nata para salvar a Nação" e tal, e aquela senhora que me alertou para o facto de não poder comer bifes se não puder comer bifes e que tenho de lavar os dentes de torneira fechada.
Ando um bocado cansado que me digam o que devo fazer quando for pobre, repito. Sendo que nunca fui rico.
Agora, até aquele senhor Arcebispo de Braga diz que a Igreja "não tem por vocação descobrir os caminhos que se devem percorrer enquanto sociedade" mas, como as Tentações do Púlpito (escrevi com letra grande porque acho que daria um bom título para um quadro de Bosch) são demasiado tentadoras lá vai dizendo que é necessário "reconhecer que há coisas que são desnecessárias, supérfluas, que se passam bem sem elas". Este Arcebispo deve ser Franciscano. Fui ver. Não é. É do Vaticano mesmo, aquele síto onde também rejeitam muito o supérfluo.

Estou mesmo cansado que me digam o que devo fazer quando for pobre. Sendo que... já sabem.

O arcebispo de Braga salientou ainda que "a questão do desemprego é muito preocupante" e que existe hoje "muita gente a acordar todos os dias com este enigma diante dos olhos". Esta declaração tem o seu quê de enigmático, sim. Primeiro, pode significar que a pessoa foi despedida durante a noite porque adormece empregada e acorda desempregada ou pelo menos com o "enigma" do desemprego. Nunca tinha visto o desemprego como um "enigma". Como uma oportunidade, sim, já nos disseram que pode ser, agora, um"enigma"... mas acho que já percebi. Como um sacerdote nunca fica no desemprego essa é uma situação deveras enigmática, para o próprio.

"A austeridade passará por aí e teremos que nos habituar a ela". Ah que cansaço. Obrigado a todos pela preocupação. Obrigado por terem a bondade de me dizer o que fazer quando for pobre. Sendo que e tal, né? Obrigado as estas pessoas cujo mister parece ser dizer a todos o que fazer quando formos pobres.

Supérfluo, caro Arcebispo. Supérfluo, senhora do bife. Eu sei bem o que fazer quando for pobre. Aliás, não há muito a fazer, não é? É essa a vantagem de ser pobre. Aliás, já me esquecia, eu nunca fui rico. Estou cansado que me digam e não sei quê.

1 comentários:

  1. Sem saber o que e ser rico tambem ainda nao percebi o que fazer agora que sou pobre. Provavelmente farei o mesmo quando nao sabia o que era ser rico. Excelente texto. Caso para dizer, rica escrita. ;)

    ResponderEliminar

Siga-nos por Email